Colecionando Delicadezas

Cheguei à cidade sem ter alimentado qualquer expectativa. Isso, pela primeira vez nada vida. Muitos, enquanto eu ainda fazia a pequena mala para a viagem, perguntavam sobre a ansiedade que, invariavelmente, toma de assalto o coração daquelxs que se lançam num destino desconhecido. Minha única certeza, eu garantia aos perguntadores, era saber que seguia inteira e, ao mesmo tempo, aberta para os encontros que se dariam.

Cerca de mil e duzentos quilômetros separam Vitória, a capital capixaba, de Mucugê, na Chapada Diamantina. A viagem não foi simples, eu assumo. Desde que cheguei em casa, e isso já faz uma semana, parece que meu cérebro está num daqueles trios do carnaval baiano. Ele, literalmente, não se acerta dentro da caixa craniana.

Durante um longo trecho da estrada, a sensação era a de que um tapete de costelinhas estava estendido diante de nós, sem chance de desvencilharmo-nos dele. Evidente, nada que se compare às travessias que aquelas mulheres e aqueles homens das sertanias fizeram e, ainda, precisam fazer, inclusive, em nome da sobrevivência.

Sai do aeroporto de Vitória às cinco da manhã. Às sete da noite, viva com farofa, estava na abertura da Feira Literária de Mucugê. Todos os discursos daquela noite assumiram a palavra, de fato, como forma de resistência e, sobretudo, de reinvenção da vida. De cara, já amei aquela gente toda que, ao final do evento, em uníssono, soltou um: – Fora, Temer!

Era como reler ou ouvir “Canudos não se rendeu”, no capítulo seis da obra “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, o escritor homenageado na segunda edição da festa literária, que, imagino, deve ter assistido a tudo, de camarote privilegiado, com extremo orgulho do seu povo do sertão brasileiro ou do seu povo, de ser tão brasileiro.

Depois disso, saímos para comer uma pizza de marguerita com suco de laranja e cenoura. Logo, a noite já era alta. Sem saber exatamente onde estávamos e para onde deveríamos ir, seguimos a pé, Arnaldo e eu, para a pousada Monte Azul. Nossa única referência concreta para onde deveríamos seguir, rumo à hospedaria, era o Cemitério Bizantino. Durante o caminho havia uma placa que sinalizava “Pousada Monte Azul a 200 metros”. O fato era que, enquanto caminhávamos, esses duzentos metros se tornaram 2 mil metros. Arnaldo e eu caminhamos, sob a abóbada celeste, pelo menos, por uns quarenta minutos. Por mais que caminhasse, confesso, eu não sabia onde estava indo. Arnaldo, que é uma pessoa cega, era guiado por mim. Nunca na vida a responsabilidade me soou tão cara. Senti como se estivesse interpretando “Dois perdidos numa noite suja”, uma peça de Plínio Marcos. Ninguém nas ruas. Galos já cocoricavam. Cães tímidos uivavam corajosos de seus quintais. Dalgumas casas, era possível adivinhar o canal televisivo que assistiam. Até que, quando a esperança já era a única que morria, demos de cara com o portão da pousada. Inacreditável!

Arnaldo foi para o seu quarto. Eu, para o meu. Um banho quente e longo foi tudo o que quis viver, e vivi. Naquela noite, enquanto ensaboava o corpo, chorei. Um choro compulsivo que revelava a saudade de casa. Mas, não era a saudade da casa física, pintada de branco gelo. É uma saudade de uma casa que a gente não sabe como é, mas sabe que tem.


Fonte da imagem: goo.gl/MDemNt, acesso em 15 de Dezembro de 2017, às 17h59m.

 

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