A Cigana Analfabeta lendo a mão de Paulo Freire

A frase que dá nome a este artigo, extraída da canção Beradêro, do compositor Chico César, mais do que convite à leitura deste texto, soa como provocação para a tessitura do que vai nele: uma tentativa de contribuir com a reflexão acerca da Alfabetização no Brasil, face ao Dia Nacional da Alfabetização comemorado no dia 14 de novembro.

A canção Beradêro, (Beirada + eiro), entre outras coisas, promove um diálogo entre o particular e o universal; os territórios, as fronteiras e suas beiradas. Quando tratamos dos processos de ensino da leitura e da escrita, da cultura grafocêntrica, especialmente no Brasil, não é difícil notar a quantidade de brasileiros e brasileiras que ficaram, e ainda permanecem, à margem, à beira desse direito. Nesse caso, a cigana analfabeta de Chico César, infelizmente, não está sozinha.

Segundo dados do Instituto Paulo Montenegro (2015), cerca de 13,2 milhões de brasileiros e brasileiras estão na condição de  pessoas que não sabem ler e escrever.  Esse número representa 8,7% da população do país acima de 15 anos.  De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Espírito Santo tem mais de 226 mil adultos que não sabem ler e escrever. Conforme o IBGE, cerca de 29% desse total, que corresponde a 65.636 pessoas acima de 15 anos, está na Região Metropolitana de Vitória. Estamos diante de números extremamente significativos, tanto para o Brasil, de modo geral, quanto para o Espírito Santo e a Região Metropolitana de Vitória, de forma particular.

Apesar da proposição de diferentes programas implantados e implementados, historicamente, com o objetivo de erradicar o analfabetismo, como Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa, de 2012, enfrentamos, às portas da segunda década do século XXI, as mazelas da herança histórica da exclusão social e, por conseguinte, o desafio de educar respeitando as diferenças e valorizando a diversidade. A personagem da canção de Chico César é única e múltipla ao mesmo tempo: é mulher, é cigana e é analfabeta. A história nos conta quais foram os lugares destinados para pessoas como ela na sociedade brasileira: a margem, a beira.

Conforme o Relatório de Monitoramento das Metas do Plano Nacional de Educação, biênio 2014-2016, divulgado no último dia 8 de novembro, as metas que tratam da alfabetização não foram cumpridas. Além disso, o relatório chama a atenção para a questão do alfabetismo funcional: estudantes que, mesmo depois de três anos dedicados ao período escolar de alfabetização e letramento inicial, só desenvolveram habilidades elementares.

O artista paraibano, implicado com a existência político-poética, tem na sentença “a cigana analfabeta lendo a mão de Paulo Freire”, além da denúncia, a anunciação acerca das potências criativas, dos possíveis da vida e das conexões que ela permite ao longo dessa travessia.

Nesse sentido, Chico César se aproxima, e muito, de um outro nordestino: Paulo Freire. O emblemático Freire, reconhecido nacional e internacionalmente como o pai da Pedagogia do Oprimido, livro datado de 1968, considera que “a leitura do mundo precede a leitura da palavra”.

Logo, ainda que a “cigana analfabeta” não tenha tido o direito de aprender a ler e a escrever, de aprender a codificar e a decodificar o sistema de escrita, ela continua sendo sujeito de direito, cidadã. Assim como os 13,2 milhões de brasileiros e brasileiras que, de uma forma ou de outra, foram negligenciados em seu direito à educação e à aprendizagem da leitura e da escrita.

Nessa perspectiva é possível compreender que as aproximações entre Chico César e Paulo Freire são ainda mais evidenciadas. Ambos, a partir de seus saberes e fazeres, assumem a educação como um ato eminentemente político – no sentido grego da palavra – o que indica a implicação do artista e do professor com a garantia de direitos, à cultura e à educação, respectivamente. Provavelmente, implicações que motivaram-nos para assumir o desafio da Gestão Pública, da Educação e da Cultura. Paulo Freire já foi secretário de educação da Prefeitura de São Paulo; e Chico César, secretário de cultura do Governo da Paraíba.

A história da alfabetização no Brasil, de modo geral, sempre exigiu, como ainda exige, atenção: orçamento; universalização do ensino; políticas públicas; políticas educacionais; valorização da carreira do magistério; formação de professores; pesquisas; abordagens metodológicas; recursos didáticos e pedagógicos; processos de avaliação; acessibilidade; condições de acesso e permanência nas unidades de ensino e tantas outras lógicas que atravessam-na.

A cigana analfabeta, Chico César, Paulo Freire, você e eu somos brasileiros. E, na condição de cidadãos, a partir nossos fazeres,  precisamos garantir que a cigana possa ler, além da mão, o livro, o jornal, a revista, as charges, o tablete, as receitas, as bulas, as placas, os sinais, as fotografias, as esculturas, as legendas e, sobretudo, as entrelinhas. Nesse aspecto, o que vemos e lemos, hoje, no campo das políticas públicas, assinado pelas mãos de gestores públicos, exige que tomemos partido, sim. O partido do direito à aprendizagem da leitura e da escrita. O destino, está traçado?


*Artigo originalmente publicado no Caderno Pensar, do Jornal “A Gazeta”(ES), no dia 19 de novembro de 2016.

**Fonte da imagem: http://valepensar.net/paulo-freire-em-seu-devido-lugar/ Acesso em 08 de novembro de 2017, às 17h54m.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s