Poéticas da Infância

– O que você vai ser quando você crescer? Por dentro, ela respondia: – Grande! Desde criança essa pergunta sempre a provocou. Ora bolas, ao acaso, mesmo pequena, já não era alguém? Seria necessário crescer para ser? Logo, em relação à pergunta inicial, deve-se ser o tamanho que se precisa ter.  E isso não tem nada a ver com estatura. A criança é, e o seu direito de ser precisa ser observado e, evidentemente, respeitado.

No conjunto das políticas que garantem o direito à infância, e tudo o que delas decorre, encontramos algumas proposições que se constituem basilares: a Declaração dos Direitos da Criança, de 1959, que reitera o reconhecimento e a observância dos direitos da infância; a Constituição Federativa do Brasil, de 1988, que estabelece a educação das crianças como direito do cidadão e dever do Estado; o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), de 1990, que reafirma o direito à educação e às políticas para a infância; a Lei de Diretrizes de Bases da Educação Nacional (LDB), de 1996, que evidenciou a importância da Educação Infantil – primeira etapa da Educação Básica; os Referenciais Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (RCNEI), de 1998, que estabelecem um conjunto de orientações pedagógicas à ação docente; as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (DCNEI), de 2010, que têm por objetivo contribuir com o processo de organização de propostas pedagógicas na educação infantil e o Plano Nacional de Educação (PNE), de 2014, que tem como uma de suas metas a universalização da Educação Infantil.

Por outro lado, entendemos, você e eu, o subtexto da questão inicial. A intenção do adulto que perguntava era a de conhecer as expectativas de uma criança pequena acerca da possibilidade de escolha, e exercício, de uma atividade profissional para a sua vida futura. Acredito, contudo, que o adulto deveria ter se dedicado a elaborar melhor suas interrogativas para evitar fadigas e constrangimentos diante das (im)prováveis respostas ou mesmo das novas perguntas. Afinal, o que conhecemos que seja capaz de superar o poder inventivo do universo infantil, suas máximas epistemológicas, recheadas de curiosidades, e a sua surpreendente capacidade de elaboração intelectual?

É a partir desse universo, criativo, curioso e inteligente, que as crianças pequenas vão exercitando suas escolhas tanto quanto vão aprendendo a lidar com as renúncias que a vida, aos poucos e constantemente, seguirá impondo na permanente exigência de reelaboração da forma de habitar o mundo e reinventá-lo. Para isso, a brincadeira é porta de entrada e, muitas vezes, de permanência no mundo. Em alusão à Carl Gustav Jung, “a mente criativa brinca com os objetos que ama”.

Em diversas culturas e diferentes tempos históricos, a brincadeira sempre se fez presente. As formas, espaços, tempos, objetos e os próprios brincantes foram, e continuam, se transformando. Até o final do século XVIII, a brincadeira era comum a adultos e crianças. No início do século XIX, com a sociedade industrial, o brincar passou a fazer parte, exclusivamente, da vida infantil. Isso associado ao apelo para o consumo de brinquedos. No século XXI, o brincar constitui-se de uma variedade de linguagens associada às brincadeiras conhecidas como tradicionais.

Quando se fala em linguagem, geralmente ela aparece associada ao desenvolvimento da fala e mesmo da aquisição de leitura e escrita pela criança. Ela, entretanto, também implica a aproximação com as diversas linguagens artísticas e manifestações culturais, como artes visuais, audiovisual, cinema, dança, exposições, literatura, música, teatro, entre outras tantas possibilidades de produção, promoção e fruição artística e cultural. Sobretudo, com o humano e com a diversidade humana.

No contexto atual brasileiro, marcado por uma série de dissabores nas mais diversas esferas sociais, e no mês em que se comemora o Dia das Crianças, talvez este texto seja apenas um pretexto para nos perguntar: – Quanto da criança que fomos permanece dentro de nós e o que temos feito com ela, por ela e em nome dela? Fechemos os olhos. Olhemos para dentro. Nossas crianças estão esperando por nós como presente. Elas nos ajudarão com as respostas.


*Artigo originalmente publicado no Caderno Pensar, do Jornal “A Gazeta”(ES), no dia 14 de Outubro de 2017, sob o título “Poéticas Infantis”.
**Fonte da imgem: goo.gl/JHoA3V, acesso em 15 de dezembro de 2017, às 17h27m.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s